CentroesteNews
06/12/2025
A Bolívia despertou para um novo momento político depois de quase duas décadas marcadas pelo domínio do Movimento ao Socialismo. A chegada de Rodrigo Paz à Presidência representou uma ruptura com o modelo anterior e abriu espaço para uma agenda de mudanças que vem sendo conduzida com ritmo acelerado e discurso direto. Desde os primeiros dias de governo, o novo presidente tem insistido na ideia de que o país precisa “recomeçar” em áreas essenciais do Estado.
Logo após a posse, Paz anunciou medidas que afetaram diretamente o bolso dos bolivianos e o funcionamento da máquina pública. Impostos que pesavam sobre grandes fortunas, transações financeiras, jogos e promoções empresariais foram eliminados com o argumento de que afastavam investimentos e contribuíam para a fuga de capitais. Paralelamente, o governo apresentou a proposta de reduzir em 30% os gastos públicos até 2026, iniciativa que já provoca intensos debates no Parlamento e entre economistas.
A reforma administrativa ganhou um símbolo forte com a extinção do Ministério da Justiça. Para o novo presidente, a pasta havia sido transformada em um instrumento político durante os governos de Evo Morales e Luis Arce. Em declarações públicas, Paz afirmou que não permitirá mais o uso do Estado para perseguir adversários e defendeu uma ruptura definitiva com práticas que, segundo ele, feriram a democracia boliviana.
O combate à corrupção foi elevado ao centro do discurso oficial. Auditorias preliminares divulgadas pelo governo apontaram um cenário descrito como alarmante, com indícios de desvios bilionários em contratos, compras e estruturas administrativas montadas ao longo dos últimos governos. Casos envolvendo equipamentos de alto valor que nunca teriam funcionado e suspeitas de irregularidades em estatais do setor de energia passaram a ser investigados. O objetivo declarado é recuperar a confiança da população em instituições historicamente desacreditadas.
No campo econômico, o novo governo afirma ter herdado a pior situação em quatro décadas. Reservas internacionais em níveis críticos, dificuldades no abastecimento de combustíveis e distorções cambiais formam o retrato de um país que tenta equilibrar urgência e planejamento. A equipe econômica busca linhas de financiamento internacional que ultrapassam bilhões de dólares, além de negociações emergenciais com organismos regionais para aliviar a pressão sobre as contas públicas.
A área institucional também entrou no radar das reformas. Paz tem defendido com frequência a necessidade de uma “reconstrução de raiz” do sistema judicial. Em discursos recentes, o presidente afirmou que encontrou um Estado paralisado pela burocracia e prometeu restaurar a independência do Judiciário como condição para devolver à sociedade a confiança nas decisões da Justiça. Entre as medidas anunciadas está a digitalização completa dos processos judiciais, com a promessa de mais transparência e menos espaço para manipulações.
A política externa passou a refletir essa nova fase. O governo boliviano iniciou um movimento claro de reaproximação com os Estados Unidos e sinalizou o distanciamento de antigas alianças ideológicas com países como Cuba, Venezuela e Nicarágua. Foram retomadas relações diplomáticas que estavam rompidas há anos, além de discussões sobre cooperação na área de segurança e políticas para facilitar o intercâmbio comercial e aéreo.
O que está em curso na Bolívia é mais do que um conjunto de decretos e reformas administrativas. Trata-se de uma tentativa de redefinir o papel do Estado, reorganizar a economia e redesenhar o lugar do país no tabuleiro internacional. A velocidade e a profundidade dessas mudanças já despertam reações diversas, mas indicam que a Bolívia vive, agora, um dos capítulos mais intensos de sua história política recente.




