CentroesteNews
24/01/2026
A escalada de tensões entre os Estados Unidos e a União Europeia (UE) ganhou um novo capítulo após o presidente norte-americano Donald Trump ameaçar impor tarifas adicionais a países europeus que se opõem ao plano de anexação da Groenlândia. Diante do que foi classificado como uma tentativa de chantagem econômica, a França passou a defender o uso do chamado Instrumento contra a Coerção Econômica (ACI) — apelidado em Bruxelas de “bazuca comercial”.
A reação europeia veio em tom firme. “A Europa não será chantageada”, afirmou a primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, após Trump anunciar que produtos importados de Dinamarca, Noruega, Suécia, França, Alemanha, Reino Unido, Holanda e Finlândia sofrerão tarifas de 10% a partir de 1º de fevereiro, com elevação para 25% em junho. Segundo o presidente dos EUA, as tarifas permaneceriam até que a Dinamarca aceitasse negociar a soberania da ilha ártica.
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O Instrumento contra a Coerção Econômica, aprovado pela União Europeia em 2023, foi criado para responder a pressões externas que tentem forçar decisões políticas ou estratégicas por meio de ameaças comerciais ou financeiras. Na prática, trata-se de um mecanismo de defesa que permite à UE agir rapidamente diante de ações consideradas abusivas por países terceiros.
O ACI autoriza a adoção de medidas retaliatórias graduais, que podem incluir:
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imposição de tarifas adicionais sobre produtos importados;
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restrições a serviços e licenças de importação ou exportação;
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limitações ao investimento estrangeiro direto;
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bloqueio da participação de empresas estrangeiras em licitações públicas;
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restrições ao acesso a financiamentos públicos e privados;
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e até a exigência de compensações financeiras ao país alvo da retaliação.
Caso seja ativado, o instrumento permitiria à UE atingir diretamente empresas e interesses econômicos dos Estados Unidos, ampliando o conflito para além do campo diplomático.
O presidente francês Emmanuel Macron foi o principal líder europeu a defender publicamente a ativação do ACI, classificando a ameaça de Trump como “inaceitável”. Para Macron, a soberania europeia não pode ser negociada sob pressão econômica. “Nenhuma intimidação nos influenciará, seja na Groenlândia, na Ucrânia ou em qualquer outro lugar”, declarou.
O tema também foi mencionado pelo primeiro-ministro da Irlanda, Micheál Martin, que confirmou que a “bazuca comercial” está sobre a mesa, embora tenha defendido o esgotamento das vias diplomáticas antes de qualquer retaliação.
Embora volte agora ao centro do debate por causa dos EUA, o ACI foi concebido tendo China e Estados Unidos como principais alvos potenciais. A iniciativa ganhou força após um episódio envolvendo a Lituânia, em 2021, quando o país sofreu restrições comerciais chinesas após estreitar relações com Taiwan. À época, empresas lituanas relataram bloqueios de exportações, cancelamento de contratos e dificuldades logísticas.
A União Europeia argumenta que esse tipo de coerção econômica não está claramente previsto nas regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), o que justifica a criação de um instrumento próprio de defesa.
Apesar da pressão francesa, vários líderes europeus defendem cautela. O primeiro-ministro da Noruega, Jonas Gahr Støre, alertou para o risco de uma guerra comercial fora de controle, afirmando que ninguém sairia vencedor de um confronto desse porte.
Os números mostram o tamanho do risco. O comércio de bens e serviços entre UE e EUA atingiu US$ 1,8 trilhão em 2023, com cerca de US$ 5 bilhões circulando diariamente entre os dois lados do Atlântico. Enquanto a UE tem superávit expressivo em bens, os EUA lideram no setor de serviços.
No ano passado, Washington e Bruxelas haviam firmado um acordo para reduzir tarifas, em troca de investimentos europeus nos setores industrial e de defesa dos EUA. Agora, a possibilidade de congelamento ou revisão desse acordo também está em discussão.
Em reunião de emergência, os embaixadores dos 27 países da UE analisaram o cenário e os próximos passos. Por ora, a palavra de ordem segue sendo diálogo, mas, nos bastidores, a Europa deixa claro que a “bazuca comercial” está carregada — e pronta para ser usada se a pressão americana continuar.