Mesmo com um lucro expressivo de R$ 20,7 bilhões em 2025, o Banco do Brasil enfrenta um cenário de alerta devido ao aumento da inadimplência, puxado principalmente pelo agronegócio. O tema ganhou força após a divulgação de um calote bilionário, de R$ 3,6 bilhões, no balanço financeiro do quarto trimestre, causado por uma única empresa. O banco afirmou que a dívida foi regularizada em janeiro de 2026 e cedida a terceiros, mas o episódio acendeu o debate sobre um problema mais amplo: atrasos crescentes em pagamentos em um momento de altos juros no Brasil.
Segundo o balanço, a inadimplência acima de 90 dias subiu para 5,17% no último trimestre de 2025, bem acima dos 3,16% registrados no ano anterior. Apesar de excluir o impacto do calote isolado, o índice ainda seria preocupante, ficando em 4,88%. Entre os grandes bancos, o Banco do Brasil liderou o ranking de inadimplência, superando Bradesco, Itaú e Santander, cenário que reflete, em grande parte, a crise enfrentada pelo setor agropecuário.
O agronegócio foi o segmento que mais sentiu o impacto da deterioração econômica. A inadimplência no setor atingiu 6,1%, evidenciando os reflexos de problemas como perdas climáticas, endividamento elevado e restrições de crédito. Com uma carteira que fechou 2025 em R$ 406,1 bilhões, o Banco do Brasil, maior financiador desse setor no país, permanece exposto às dificuldades enfrentadas pelos produtores rurais. Pequenos e médios produtores, ao lado de micro e pequenas empresas, aparecem entre os grupos com maior risco de inadimplência.
Além disso, o agravamento da crise no agro fez disparar os pedidos de recuperação judicial no Brasil. Dados do Monitor RGF mostraram que, enquanto o comércio e os serviços lideram em números absolutos, o agronegócio registrou o maior índice proporcional de recuperações judiciais, com 13,53 empresas em recuperação a cada mil ativas, refletindo a vulnerabilidade do segmento.
Para conter os atrasos, o Banco do Brasil lançou o programa BB Regulariza Dívidas Agro, que renegocia débitos de produtores com prazos de até nove anos. Até dezembro de 2025, R$ 22,6 bilhões já haviam sido renegociados com mais de 15 mil produtores. Ainda assim, analistas projetam uma recuperação lenta. O próprio banco prevê que a expansão de sua carteira agro em 2026 será modesta, com crescimento entre -2% e +2%.
Especialistas apontam que o aumento da inadimplência reflete o custo elevado do crédito e a necessidade de maiores provisões, o que, por outro lado, demonstra prudência na gestão do banco. Segundo o advogado Marcos Pelozato, a situação não representa um risco sistêmico para o setor financeiro, mas sim um alerta sobre a importância de monitorar de perto a qualidade dos empréstimos e reforçar as reservas.
Após a divulgação do balanço, as ações do Banco do Brasil reagiram de forma instável no mercado. Enquanto inicialmente apresentaram uma alta de 8%, já no dia seguinte registraram queda de 3,38%. O cenário de incertezas financeiras, especialmente no agronegócio, continua sendo um desafio relevante para o banco em 2026, com o mercado atento aos próximos passos e à capacidade de gerenciamento dessa crise crescente.


