Uma decisão simbólica, mas de grande peso histórico, marcou a sessão desta quarta-feira (25) na Organização das Nações Unidas. A Assembleia aprovou uma resolução que classifica o tráfico transatlântico de africanos escravizados como “o crime mais grave contra a humanidade”.
A medida teve apoio de 123 países, mas chamou atenção pelo número reduzido, e significativo, de votos contrários: apenas Estados Unidos, Israel e Argentina se posicionaram contra.
Outros 52 países optaram pela abstenção, incluindo o Reino Unido e nações da União Europeia.
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O que diz a resolução?
Proposta por Gana, a medida busca reconhecer oficialmente a gravidade histórica da escravidão e abrir espaço para debates sobre reparações às populações descendentes.
Entre os pontos defendidos estão:
- Pedidos formais de desculpas por países envolvidos
- Indenizações financeiras
- Devolução de artefatos históricos
- Compromissos para evitar que injustiças semelhantes se repitam
Apesar disso, a resolução não tem caráter obrigatório, ou seja, não impõe medidas legais imediatas aos países.
Debate global e divergências
Durante a votação, o presidente de Gana, John Dramani Mahama, criticou países que se opuseram, acusando-os de tentar “apagar a história”.
Já críticos da resolução argumentam que ela pode criar uma espécie de “hierarquia” entre crimes contra a humanidade, tratando alguns como mais graves do que outros.
O tema também divide opiniões sobre responsabilidade histórica: enquanto alguns defendem reparações, outros afirmam que governos atuais não deveriam responder por ações do passado.
Contexto histórico
Estima-se que cerca de 12,5 milhões de africanos foram sequestrados e vendidos como escravizados entre os séculos XV e XIX, um dos capítulos mais marcantes e dolorosos da história mundial.
Segundo António Guterres, ainda são necessárias “ações muito mais ousadas” para enfrentar as consequências desse período, que seguem refletidas em desigualdades raciais e sociais até hoje.
Mudanças políticas e alinhamentos
O voto da Argentina chamou atenção por reforçar o alinhamento recente com os Estados Unidos e Israel, especialmente após a eleição de Javier Milei.
Analistas veem esse movimento como parte de uma reconfiguração geopolítica dentro da ONU.
Um passo simbólico, mas poderoso
Mesmo sem força legal, especialistas consideram a resolução um marco importante no reconhecimento internacional da escravidão como crime contra a humanidade, e um possível ponto de partida para debates mais concretos sobre justiça histórica.